É comum acreditar-se que a perda da inocência advém de um variado número de coisas, particularmente com a perda da virgindade ou algo igualmente marcante ou positivamente trágico.
Creio que a perda da inocência é um processo gradual no qual crescemos.
Essa perda começa a acontecer quando percebemos que nem tudo à nossa volta acontece como queremos. Este primeiro passo, apesar de importante, é relativamente inconsequente e dá-se muito cedo em nossas vidas quando percebemos que o chorar por um chocolate não é sinal que o teremos. Porém é aqui que começamos a perceber que a vida tem adversidades.
O segundo passo nesta perda de inocência é o momento em que percebemos que nem todas as pessoas são fiáveis. Nossos amigos nem sempre agem de acordo com nossas expectativas causando-nos danos sentimentais que até então nos eram totalmente desconhecidos.
Próxima etapa de crescimento e perda de inocência dá-se quando as figuras fulcrais das nossas vidas deixam de ser perfeitas. Nossos pais passam a ser humanos e a cometer erros. As pessoas para quem olhamos como heroís deixam de ser incapazes de cometer erros e percebemos, a um custo muito elevado, que existem bastante poucas coisas que continuam a manter-se sagradas e preciosas na vida e em todas as relações.
Prosseguindo nesta toada, a próxima "facada" na inocência dá-se quando a primeira relação sentimental e amorosa acaba. Creio que não há amor como o primeiro porque é o único para o qual entramos sem base de comparação, sem expectativas distorcidas e sem medo de tentar e dar tudo por ele. É a muito custo que percebemos, no fim desta relação, que nem o amor é perfeito, nem sempre tudo acaba bem, por mais que queiramos, e que até "o amor da nossa vida" (até ao momento pelo menos) nos magoará. É um passo particularmente doloroso de se dar e um no qual aprendemos muito.
Seguidamente dá-se a parte mais chocante e, particularmente, mais definitiva na total perda de inocência. O momento em que nós próprios fazemos algo que nunca acreditaríamos que fizéssemos. Um momento no qual uma vida inteira de crenças (em nós próprios e em nossa maneira de ser) é abalada. Compreendemos que também nós erramos e por vezes fazemos coisas que nunca pensaríamos ser capazes de fazer. Aprendemos a ser mais tolerantes com nós próprios e a ter menos expectativas.
Assim tenho eu compreendido o processo de perda de inocência. Mantenho-me inocente relativamente a tudo o resto que possa vir.
Neste momento compreendo que ninguém é perfeito. Todas as pessoas cometem erros e fazem coisas estúpidas que provavelmente nunca quereriam na verdade fazer. Não pretendo encontrar amigos perfeitos nem um amor eterno. Não finjo ter ídolos imaculados nem ter tido modelos brilhantes. Sei que não sou nem nunca serei nenhuma dessas coisas. Pretendo sim ser o que procuro: alguém que mesmo sendo humano, imperfeito e capaz de, por vezes cometer verdadeiras atrocidades, seja suficientemente bom para após tudo isso merecer ser perdoado.